segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Princípios a serem observados no desenvolvimento do ensino

1 - Igualdade de condições de acesso e permanência na escola.

Essa igualdade está longe de ser atingida devido a uma multiplicidade de fatores e circunstâncias: pobreza ou miséria de algumas regiões do Brasil e de seus habitantes, e também no entorno de alguns centros urbanos desenvolvidos; desemprego, subemprego e salários baixos; pais despreparados e sem estudos; carência de transporte, e também do transporte escolar em regiões onde a assistência do governo ainda não chega a contento; necessidade de jovens  - e até de crianças- trabalharem para ajudar o sustento da família; acesso limitado a livros e bibliotecas; sistemas de saúde  e demais serviços em condições precárias prejudicando em muito a população; mortalidade infantil ainda existente; número insuficiente de creches e pré-escolas e de escolas com ensino básico completo(fundamental e médio); carência de professores qualificados havendo leigos atuando em alguns estados do Brasil; atendimento insatisfatório aos Jovens e Adultos  e aos portadores de necessidades especiais, etc

A sociedade brasileira é, em verdade, marcada por profunda e significativa desigualdade social que tem reflexos na formação do cidadão, em seu desenvolvimento como pessoa e em suas condições de vida. As diferenças regionais também contribuem para essa disparidade social. Os 20% mais ricos da população brasileira possuem quase o dobro de anos de estudos dos 20% mais pobres. Enquanto os membros do primeiro grupo têm, em média, 10,7 anos de estudo, os do segundo possuem apenas 5,5 anos de estudo, aponta o relatório “Situação da educação brasileira - avanços e problemas”, divulgado recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Herança da atuação dos diversos governos, desde a era do descobrimento do Brasil, a acentuada divisão em pobres e ricos é um fato incontestável que marcou e ainda marca nossa sociedade.

Ao lado da burguesia portuguesa, conviveram no Brasil  Colônia, os degredados, enviados ao Brasil por Portugal, para aqui realizarem os trabalhos forçados e muitos colonos.

Quanto aos nativos, os índios, as primeiras lições recebidas, visaram sobretudo à sua catequese, trabalho dos jesuítas portugueses. Através de muitos anos, tiveram suas terras ocupadas, sem receber em troca nada que viesse a melhorar suas vidas; assim os remanescentes ainda estão aí, lutando em defesa da demarcação das poucas terras que lhes restaram (quilambolas) e de uma educação que lhes resguarde marcos civilizatórios.

Por outro lado, havia àquela época os filhos dos senhores portugueses mais abastados e que foram, por conseguinte, alvo de maior preocupação dos dirigentes do país, forçando, como conseqüência, a tomada das primeiras iniciativas de educação, no sentido de garantir-lhes seu elevado grau social, até com a instalação dos primeiros cursos superiores. Começou-se a educação de cima para baixo, do nível mais elevado ao mais elementar.

No correr dos séculos, veio a vergonhosa e abominável instalação da escravidão, contra a qual lutaram tantos bravos brasileiros, em geral originários de uma enorme miscigenação e que durou até a segunda metade do século XIX. A abolição, porém, tendo-se dado súbita e despreparadamente, deixou sequelas significativas em nossa sociedade, no campo das diferenças sociais e raciais e em nossa economia, da época cafeeira aos nossos dias.

 Passaram-se anos, revezaram-se formas de governo, mudaram de endereço as fontes de economia e o fosso existente entre os mais e menos  favorecidos só fez crescer.

         É claro que nunca existiu  no Brasil  a igualdade  de  condições de acesso e permanência na escola.

         Qual foi e qual é a escola do pobre? Certamente, não é a mesma das classes mais elevadas, socialmente falando. Nem estas poderiam ou podem abrir suas portas para toda a população indiscriminadamente, pois, tendo que manter sua qualidade, necessitam de fortes retornos financeiros. São elas as boas e caras escolas privadas que estão bem localizadas, em cidades cujas áreas e confins já se acham separados para cada um dos grupos societários aos quais já nos referimos; que podem exigir dos alunos a aquisição de livros caros com conteúdos modernos e de qualidade, à altura de seus bio- tipos físico, mental e intelectual; que podem contratar os melhores mestres com salários compensadores e, assim exigir-lhes boa produção e dedicação, até mesmo, exclusiva; que lhes proporcionam reais experiências práticas na área técnico-científica devido à qualidade e diversidade de seus laboratórios; que estão um passo a frente no conhecimento das inovações tecnológicas; que já entendem os benefícios da informática e sua influência nas comunicações, no trabalho, na economia, na vida afinal.

         Aos menos abastados pela fortuna e pela sorte, restaram as escolas públicas. Aqui se depende de grossas verbas que certamente viriam se houvesse um real empenho dos governantes, afastando procedimentos pouco honestos a que temos assistido. Essas verbas garantiriam a construção de bons prédios, de tamanho proporcional à população local e ao número de alunos em idade escolar, com número de salas suficientes, de forma que em cada uma ficassem, no máximo, 25 a 30 alunos, permitindo um melhor trabalho do professor; também a aquisição de um material didático de excelência; um digno salário para os docentes, com  previsão de projetos com vista à sua atualização; com determinação de períodos nos quais se planejasse sua substituição, de maneira que os alunos não fossem prejudicados; um reforço constante e contínuo da aprendizagem dos alunos, ação que exigiria, sempre, rodízios ou maior número de professores.  São estes alguns dos entraves à igualdade de acesso para todos.

         Quanto à permanência na escola, além dos fatores já apresentados, há a interveniência de outros que não são de menor importância, como, por exemplo, a obrigação em que se vêem os alunos mais velhos e de menos posses, de ingressar na força do trabalho, mesmo com os sub-empregos  que pouco lhes rendem para seu sustento e de suas famílias.Ou a timidez dos adolescentes que, devido à defasagem idade/série, tão freqüente nas escolas públicas, ainda se encontram tão atrasados que preferem abandonar os estudos a se sentarem lado a lado e competirem desigualmente com crianças de menor idade.

         Por outro lado, o enorme fosso existente em nossa pirâmide social não envolve, somente, as populações itinerantes. Há pobreza também  na cidade grande. Em consequência disso, cresce aí o crime organizado, caminho encontrado por muitos para um enriquecimento comprometido e comprometedor. A escola, nesse quadro, fica de fora, tornando-se vítima, sujeita à periculosidade.

         Outra crise, a de valores morais, deflagrada lamentável e inexplicavelmente entre indivíduos de posição social de destaque, começa a confundir crianças, jovens e adultos, que já vêm questionando a serventia dos princípios éticos até então ditos cultiváveis e mesmo o valor do conhecimento. As diferentes mídias se incumbem de propalar as ações criminosas e corruptas.

          Às crianças e aos jovens apresentam-se poucos caminhos:

         - frequentar a escola, a duras penas, enquanto seus pais ou outro alguém pode se responsabilizar por sua sobrevivência, o que nem sempre é viável;

         - abandonar a escola, ingressando, se conseguir, na força de trabalho informal, precocemente, o que transgride todas as determinações do Estatuto da Criança e do Adolescente,  passando a viver pelo resto da vida de subempregos;

         - ou, ainda, influenciados por indivíduos que ali já atuam, tomar o caminho das drogas e mergulhar no mundo do crime, na ilusão de que tais procedimentos suprirão suas dificuldades financeiras, o que os tornará eternos perseguidos da lei.

         A escola vem tentando desenvolver programas visando combater problemas nessas áreas, pela conscientização de pais e de alunos, desde a mais tenra idade, sobre os males decorrentes do uso de drogas, do tráfico, do sexo que causa, além da gravidez precoce, males incuráveis, deixando muitas vezes de lado o trato dos programas escolares que levam ao saber elaborado, para se dedicar a essas mazelas de cunho social.

         Nas grandes cidades, surge um outro empecilho de natureza diferente  e nas de médio porte, a racionalização necessária para preenchimento de vagas nas escolas públicas, como garantia daquele acesso, torna-se impraticável, como, por exemplo, no caso da existência de vagas ociosas em outras escolas vizinhas à comunidade onde vive o aluno, vagas essas que não podem lhes ser oferecidas porque os dirigentes da favela local não permitem a entrada de crianças e de jovens egressos de favela ou de comunidade rival nas atividades do tráfico.

         Todo esse quadro se agrava, ainda, impedindo alcance da meta prevista no princípio ora em questão, quando suas comunidades, como já dito, são mal servidas pelos serviços de saúde. Se na área urbana o problema se apresenta, nas regiões periféricas e interioranas ele ainda é mais sério.

         Nesse sentido a garantia do acesso à escola pressupõe pleno atendimento à população, através da existência de número suficiente de estabelecimentos escolares, em todos os níveis, o que equivale a dizer, com oferta real de ensino desde a educação infantil até  a universidade, o que ainda não acontece em nosso país.

         A educação escolar define-se, pois, como um serviço público de responsabilidade, prioritariamente,do governo,com a necessária colaboração da sociedade. Alcançada essa meta, porém, permanecem ainda interferindo na igualdade pretendida problemas sociais bem característicos da sociedade brasileira e que foram acima comentados, que estão a exigir projetos governamentais de envergadura. Sua concretização não se dará, com certeza, a curto prazo.

         Se o espírito democrático traduzido pelos dispositivos da Constituição de 1988 vem conseguindo conscientizar a todos para a importância da educação e da escola, não trouxe ainda os resultados esperados no que concerne à justa e efetiva distribuição de renda e à  oferta generalizada de emprego, permanecendo os grandes bolsões de pobreza em muitas regiões do país e na periferia dos maiores centros urbanos. Aí é onde se concentram aqueles que deixam seu lugar de origem com a idéia equivocada de que a mudança lhes dará emprego e qualidade de vida.

         Como afirma Viviane Sena (2011), do Instituto Ayrton Sena, tais sintomas graves se destacam devido à falta de equidade, de ética e de educação.  E acrescenta:

        

                              ‘‘Levamos mais de 300 anos para editar o primeiro livro       e nossa primeira universidade só surgiu no século XX, 300 anos depois da primeira universidade da América Latina e 400 anos após a primeira universidade da América do Norte, Harvard”, acrescenta ela.Esses fatos podem justificar as taxas de 50%. de analfabetos absolutos, enquanto a Argentina e os EUA tinham, respectivamente, 14% e 3% de analfabetos.             Em 1900, essa taxa era de 65%,o que significa que levamos meio século para reduzi-la em 15 pontos percentuais”

           Por enquanto, tem-se no sistema quase 50/% de alunos no ensino fundamental, da responsabilidade do estado. Quanto à educação infantil ela é ofertada pelos municípios que nem sempre possuem recursos suficientes para suportar o ensino fundamental em sua integralidade

          Para concluir,deve-se registrar que hoje, no Brasil, de acordo com o movimento Todos pela Educação, financiado pela iniciativa particular,  temos 3,8 milhões de crianças e jovens  fora da escola, sem se haver atingido a meta estabelecida de 93,4% para 2010 , estando-se  por conseguinte longe  do que se estipulou para o Ensino Médio,de que todo jovem, até 2022, consiga concluir esta última  até os 19 anos, enquanto que hoje só o concluíram  52%  da meta traçada.

            Quanto à promessa de se construir 6 mil creches até 2014, esta também não foi alcançada, não havendo saído do papel  esta previsão. 

          Dados divulgados mostram-nos que no ensino fundamental – da primeira à nona série regular e na educação de jovens e adultos - estão matriculados 31 milhões de alunos, sendo 16,7 milhões nos anos iniciais e 14,2 milhões nos anos finais. A educação de jovens e adultos tem 4.287.234 de matrículas; a educação indígena, 246.793; e nas áreas remanescentes de quilombos, 210.485 estudantes estão matriculados. Também no ensino médio houve aumento de 0,2% nas matrículas, com 20.515 novos alunos. No total, o ensino médio registra 8.357.675 alunos. Em 2009 eram 8.337.160. Como nos anos anteriores, a rede estadual é responsável por 85,9% das matrículas, enquanto a rede privada tem 11,8%.           .

Acredita-se que , sendo respeitados os princípios determinados ma Constituição, o quadro mostrado no Censo Escolar poderá sofrer modificações efetivas.


Autismo

Avanços na pesquisa da genética do autismo

01/02/2012
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH) deram importantes passos para desvendar o mecanismo genético do transtorno do espectro autista – como é classificado atualmente o autismo.
Eles identificaram mais um dos diversos genes relacionados ao distúrbio comportamental, além de uma desordem genética que pode dar pistas para explicar a dificuldade que os autistas têm em interagir socialmente. Ligado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), o CEGH é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.
Os resultados da pesquisa foram apresentados na Escola São Paulo de Ciência Avançada:Avanços na Pesquisa e no Tratamento do Comportamento Autista, realizada no início de janeiro na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O evento, realizado no âmbito da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), modalidade de apoio da FAPESP, foi organizado pelo professor Celso Goyos, do Departamento de Psicologia da UFSCar, em parceria com Caio Miguel, da Universidade do Estado da Califórnia, e Thomas Higbee, da Universidade do Estado de Utah, nos Estados Unidos.
Ao estudar, nos últimos três anos, os cromossomos de cerca de 200 pacientes com autismo atendidos no CEGH, os pesquisadores brasileiros identificaram em três deles uma alteração cromossômica do tipo translocação equilibrada, isto é, a troca entre segmentos cromossômicos sem aparente perda do material genético.
Em um dos três pacientes, observou-se que essa translocação genética provocou o rompimento de um gene, chamado TRPC-6, que atua em um canal de cálcio no cérebro, controlando o funcionamento dos neurônios, em particular, das sinapses neuronais – a comunicação entre os neurônios.
“Imaginamos que, por causa desse desequilíbrio no rearranjo cromossômico dos pacientes com autismo, ele tenha uma menor quantidade dessa proteína TRPC-6, o que faz com que menos cálcio vá para os neurônios”, disse Maria Rita dos Santos e Passos-Bueno, pesquisadora do Centro de Estudos de Genoma Humano da USP, à Agência FAPESP.
“O resultado final dessa alteração genética é um neurônio menos ramificado, que realiza menos sinapses [comunicação entre neurônios]”, explicou.
De acordo com a cientista, essa translocação genética, em que metade do gene TRPC-6, localizado no cromossomo 11, migrou para o 3, aniquilando sua função, é muita rara e dificilmente é encontrada em outros pacientes com autismo.
Porém, a via de sinalização celular comprometida pela mutação de um gene relacionado ao autismo, como a observada no paciente atendido, pode ser comum a outras pessoas afetadas pelo distúrbio neurológico. “Em outros pacientes com autismo, a mutação pode estar em outro gene desta mesma via de sinalização celular”, indicou.
Tratamento personalizado
Segundo Passos-Bueno, alguns dos principais avanços no estudo do autismo nos últimos quatro anos foi a constatação de que o distúrbio neurológico está relacionado a mutações específicas em um ou dois genes, que variam de um paciente para ou outro.
Os desafios para os próximos anos serão estudar as vias de sinalização celular envolvidas pelos genes relacionados ao autismo para que se possa tentar desenvolver alternativas de tratamento.
“Precisamos investigar se os genes relacionados ao autismo de cada paciente estão envolvidos com uma ou mais vias de sinalização celular. Se estiverem envolvidos com várias vias de sinalização, será preciso desenvolver quase que uma droga por paciente. Será um tratamento personalizado”, disse.
Outro desafio a ser superado será entender o funcionamento dos genes possivelmente relacionados ao autismo identificados por seu grupo no Centro de Estudos do Genoma Humano para testar o quão semelhantes são entre eles.
Para isso, o grupo utiliza a tecnologia de iPS, que possibilita que células-tronco da polpa de dente de pacientes autistas sejam induzidas a se tornarem pluripotentes, derivando-se em células de todos os tipos, como neurônios.
Por meio de uma colaboração iniciada na pesquisa sobre o gene TRPC-6 com o brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, o grupo de pesquisa passou a dominar a técnica e a implantou no CEGH para dar continuidade ao projeto.
Os pesquisadores do centro também pretendem utilizar outros modelos mais simples para estudar o funcionamento dos genes relacionados ao autismo, como em drosófilas e peixe-zebra (Danio renio), antes de partir para modelos mais complexos, como camundongos ou a própria iPS.
“A vantagem desses modelos mais simples é a possibilidade de testar combinações de vários genes e realizar mais de uma mutação para analisar sua relação com o funcionamento neuronal a um custo relativamente mais baixo do que a iPS e o modelos utilizados”, disse Passos-Bueno. 
 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

RIO + 20

Documento base da RIO+20 precisa levar em conta limites do planeta

13/02/2012
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Em janeiro, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o primeiro esboço da declaração final da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20), que será realizada no Brasil em junho.
O documento, no entanto, deveria destacar de forma mais clara e objetiva o princípio de que há um limite natural para o planeta – um conceito central para o desenvolvimento sustentável. A opinião é de Carlos Alfredo Joly, titular do Departamento de Políticas e Programas Temáticos (DEPPT), a Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e coordenador do programa BIOTA-FAPESP.
“O principal problema com o documento é o fato de não partir do princípio de que há um limite natural para o planeta, e que inevitavelmente teremos que nos adaptar à sua capacidade de suporte. Este é um conceito chave do desenvolvimento sustentável, que não está posto de forma clara e objetiva em parte alguma do documento. Partir desse princípio pode ser a única chance para que a RIO+20 alcance objetivos palpáveis”, disse Joly à Agência FAPESP.
Outras autoridades e especialistas ambientais também criticaram o documento. O ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, contou à Folha de S. Paulo, em reportagem publicada em 8 de fevereiro, que os membros da comissão nacional que discute a RIO+20 pediram maior detalhamento dos objetivos de desenvolvimento sustentável no texto do esboço, além da inclusão de menção a padrões insustentáveis de produção e consumo.
Produzido por uma comissão da ONU envolvendo estados membros, agências internacionais, organizações não governamentais e grupos políticos, o documento, intitulado Zero Draft(“Esboço Zero”), também foi criticado publicamente por autoridades ambientais da Europa, mas em sentido oposto: elas atribuem “falta de foco” ao texto, já que ele estabelece como prioridades da conferência temas como economia verde e desenvolvimento sustentável.
Segundo os europeus, a conferência deveria ter mais foco na questão ambiental propriamente dita e na reorganização institucional dos órgãos internacionais voltados ao tema.
A ministra francesa do Meio Ambiente, Nathalie Morizet, disse ao jornal O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada no dia 1º de fevereiro, que “quanto mais falamos sobre crescimento verde e menos sobre governança, mais estamos perdendo o foco”. Jean Jouzel, vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), também afirmou que a RIO+20 precisa ser “mais conclusiva e menos filosófica”.
A divergência de pontos de vista, segundo Joly, confere ainda mais importância ao evento que será realizado conjuntamente pelo BIOTA, pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) e pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais nos dias 6 e 7 de março.
Segundo Joly, o BIOEN-BIOTA-Climate Change Joint Workshop: Science & policy for a greener economy in the context of RIO+20 foi planejado para que a comunidade científica possa discutir os temas da Rio+20.
No dia 8 de março, a comissão brasileira que discute as sugestões para o documento final da RIO+20 se reunirá novamente. As sugestões da reunião serão compiladas pela secretaria executiva brasileira, que condensará um novo texto para encaminhar à ONU.
“O workshop trará algumas lideranças internacionais centrais para esse processo de discussão e será uma grande oportunidade para avançar. De agora em diante, as delegações vão trabalhar noZero Draft até a 3ª Conferência Preparatória da Rio+20, que será realizada entre 13 e 15 de junho no Rio de Janeiro. Uma vez que se chegue a um acordo, o documento será aprovado pelos chefes de Estado na conferência, de 20 a 22 de junho”, disse Joly.
Capacidade de suporte
De acordo com Joly, que é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o tema da capacidade de suporte da Terra, longe de ser uma “discussão puramente filosófica”, é justamente a maior promessa de resultados concretos para a conferência.
Se os chefes de Estado reunidos no Rio de Janeiro em junho de 2012 aprovarem o princípio dos limites na capacidade de suporte da Terra, segundo Joly, isso levará a uma mudança de paradigmas que definirá uma nova trajetória para o planeta.
“Concretamente, esse me parece o único objetivo palpável que a RIO+20 poderá alcançar. Sem o reconhecimento desses novos conceitos, como Economia Verde, a criação de novas estruturas, assim como a reorganização institucional da área ambiental das Nações Unidas, na melhor das hipóteses, apenas retardarão o colapso ambiental”, afirmou.
Segundo ele, o Zero Draft deveria ter já em seu preâmbulo do documento, cujos tópicos descrevem o cenário no qual ocorre o debate, uma menção clara ao limite natural da capacidade de suporte do planeta.
“Trata-se de uma questão extremamente concreta. Se esse princípio constar no intróito do documento, a discussão já se desenvolverá com um sentido completamente diferente. Se todos os países endossarem a posição de que temos um limite de esgotamento do planeta, as convenções terão que trabalhar necessariamente nessa base. Isso determinará a agenda de como vamos modificar nossos padrões de destruição dos habitats, da biodiversidade, dos serviços ecológicos, de emissão de gases de efeito estufa e assim por diante”, explicou.
Apesar das limitações, o Zero Draft também tem pontos positivos, na avaliação de Joly, que elogiou o documento por fazer significativas referências ao avanço científico e tecnológico na promoção do desenvolvimento sustentável.
“O texto reafirma a importância da transferência de tecnologia para que todos os países possam avançar mais rapidamente nessa direção. Reforça também a necessidade da colaboração científica entre países, sem perder o foco nas soluções e inovações locais”, disse.
Outro aspecto positivo é que o esboço aponta para a necessidade de ampliação do relacionamento entre a comunidade científica e os formuladores de políticas e tomadores de decisão. “Ele reconhece que as decisões governamentais na área ambiental devem, cada vez mais, basear-se no resultado de pesquisas científicas”, afirmou.
A participação da comunidade científica será determinante para o aprimoramento do documento, que será objeto de intenso debate nos próximos meses.
Segundo Joly, para ser endossado por mais de 190 países, o documento final terá que conciliar posições amplamente divergentes. Mas discutir a questão de governança e a reformulação dos órgãos da ONU será tão importante como priorizar os temas do desenvolvimento sustentável e da Economia Verde.
“Por enquanto, o texto está muito parecido com o do documento final da RIO+10, realizada na África do Sul em 2002, que teve impacto muito baixo fora dos meios diplomáticos e frustrou as expectativas de todos. Na RIO+20 não teremos a assinatura de nenhuma nova convenção, portanto o mínimo que precisamos fazer é propor uma agenda muito clara. É isso que vamos discutir intensamente no workshop da FAPESP, em março”, destacou.

Mais informações sobre o “BIOTA-BIOEN-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the context of RIO+20”: www.fapesp.br/rio20.